Medo infantil: você assusta seus filhos?

medo infantilÉ muito comum que os pais, avós ou cuidadores vez ou outra façam uso de figuras ou personagens para assustar as crianças em troca de obediência. Para que a criança escove os dentes ou vá dormir na hora certa, dizem que ‘a bruxa vai pegar’, que ‘o bicho-papão está embaixo da cama’. Mas será que é saudável psicologicamente usar o medo infantil? Você assusta seus filhos para que eles façam o que você quer?

Recentemente, ao tentar colocar os meninos para dormir, eles me responderam que tinham que ir porque senão uma bruxa iria pegá-los. Na hora desconfiei que nossa babá estivesse inventando essa figura da bruxa para que fossem dormir ou respeitar as ordens dela. Naquele momento, fiquei chateada. Achei que não era assim que eu queria criá-los: com medo de algo que não existe. Só que, mais tarde, já desesperada porque eles não queriam me obedecer para ir dormir, testei a eficiência da tal bruxa. Exclamei: “- Vou chamar a bruxa para ela ver que vocês não querem ir dormir”. Eles se entreolharam e um foi mandando o outro ir dormir, até que todos fossem. Me senti culpada, mas, naquele momento, vi a bruxa como uma boa aliada na obediência dos meninos.

Lidando com o medo infantil

Preocupada com o medo que essa figura poderia trazer à vida deles, resolvi conversar com a psicóloga e consultora em psicologia educacional Maísa Lanzarin. Ela me disse que alguns tipos de medos fazem parte do desenvolvimento infantil, mas não é recomendado que se utilize disso para obter obediência por parte dos pequenos. “A criança vai passar por medos de bruxas, do escuro, máscaras, barulhos, etc. Todos esses medos são normais e fazem parte de determinadas fases do desenvolvimento. No entanto, utilizar-se disso para que a criança obedeça ou coopere em situações do dia-a-dia acaba por trazer um sofrimento desnecessário à criança, agravando a situação. Espera-se exatamente o contrário, que os pais acolham os filhos quando estes apresentarem seus medos”, explica.

Maísa alerta que as histórias infantis são adaptativas. Elas ajudam a criança a elaborar algumas questões que ela possa vivenciar de forma lúdica e com uma linguagem própria para seu entendimento. A criança entende a figura da bruxa naquele contexto, naquela situação da história, e a personagem deve ser mantida lá. “Dizer para a criança que a bruxa vai pegar se não dormir ou tomar banho, trazendo o personagem fictício para situações cotidianas pode trazer prejuízos. A criança concorda em tomar banho por medo da bruxa mas ao mesmo tempo pode começar a ter medo de ficar no banheiro sozinha, por exemplo. Ou concorda em ir dormir porque a bruxa vai pegar mas passa a ter medo de dormir com a luz apagada. Se o objetivo é obter cooperação por parte da criança, é mais interessante prometer ler uma história se todos forem para a cama no horário combinado, por exemplo”.

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Bem, cheguei a conclusão que, ao me livrar de um problema, estaria criando outro. Aboli totalmente a ideia da bruxa e tenho feito negociações para que durmam. O que tem dado certo aqui é avisar cerca de 30 minutos antes do horário que é para eles irem se preparando porque dali a pouco eu os chamarei para dormir. A cada 10 minutos eu aviso que está quase na hora e que é para irem dando tchau para os brinquedos. Não funciona em 100% das vezes, mas em geral tem dado certo.

E por aí? Como vocês fazem?

Até mais!

4 comentários

  1. Aline

    Michele, sou policial civil aqui no RJ e há pouco tempo atendi uma mãe com uma criança que estava correndo pela delegacia. Na verdade não me incomodou em nada, mas a mãe olhou para a criança e disse: “Se você não parar de correr a polícia vai te pegar! Olha a policial ali, ela já vai pegar você!”. Confesso que na hora senti bastante raiva daquilo. Chamei a criança, perguntei o nome dele e disse: “A polícia não vai pegar você, mas você não pode ficar correndo senão vai fazer dodói. Você quer fazer dodói?” Ele me respondeu que não e sentou ao lado da mãe, que ficou bem sem graça. Até a hora dela ir embora o menino ficou bem comportado. Acho péssimo fazer medo nas crianças, porque minha mãe fazia em mim e o terror era tão grande que me recordo até hoje. Tinha cerca de 4/5 anos.

    1. Michele Kaiser

      Nossa, Aline. Que interessante. Temos que lembrar também que a criança muitas vezes obedece/respeita ordens de terceiros mais do que as mães, para as quais fazem manha. Mas concordo que dizer que “a polícia vai pegar você” é fazer um desserviço. Além de educar mal, está fazendo a criança não gostar e ter medo da polícia. Não acha? Beijos.

  2. Marina

    Oi Michele, você mais uma vez trazendo excelentes assuntos no blog! Sabe, eu sou totalmente contra criar nossos filhos com obediência pelo “Medo”. Não aceito em hipótese nenhuma que as vovós (ou quem quer que seja) façam medo na minhas meninas. Não sabemos até onde esse trauma de infância poderá ir. Se nós, que somos os protetores deles, deixamos nossos filhos com medo de propósito, acho que estamos errando. No meu ponto de vista, melhor impor respeito, ( mesmo tendo que repetir um milhão de vezes a mesma ordem) que aterrorizar nossas crianças! Sentir medo é muito ruim.

    1. Michele Kaiser

      Faz parte sentir medo, mas odeio mentiras! Bom saber que você também pensa assim. Beijos.

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