Gagueira infantil – Quando devemos nos preocupar?

Alguns meses atrás, percebi que Matheus estava gaguejando bastante ao nos contar alguma coisa. Quando ele ficava contente, falava normalmente. Quando precisava competir com os irmãos para falar, gaguejava muito e não conseguia concluir. Passadas algumas semanas, os sintomas passaram. Mas Murilo logo começou também com a gagueira. O problema é que, no caso do Murilo, os sintomas vêm se estendendo há quase três meses e eu, como mãe preocupada, precisava fazer alguma coisa!

gagueira infantil

Para entender melhor sobre o assunto, conversei com a doutora fonoaudióloga Anelise Junqueira Bohnen, presidente do Instituto Brasileiro de Fluência (IBF). Segundo ela, existem três tipos de distúrbios de fluência que iniciam na infância que são confundidos com gagueira: disfluência, taquifemia e gagueira. “Embora diferentes, para o ouvido leigo soam como gagueira, mas não são”, explica.

A disfluência se caracteriza por uma ou duas repetições silábicas (por exemplo: ca-casa) ou palavras monossilábicas (eu-eu). Não há alteração na voz nem na respiração e a criança não se dá conta. O mais importante, no entanto, é que esse período não demora mais do que 6 a 8 semanas para ser superado. A gagueira é um distúrbio caracterizado por ser involuntário, individual e intermitente. Essa intermitência confunde muito as pessoas que acham que a criança está ansiosa e nervosa. Não é nada disso. Essa intermitência tem a ver com um neurotransmissor chamado dopamina. As rupturas podem ser em repetições de sons (p-p-pato), sílabas (pa-pa-pato) ou em palavras monossilábicas (a-a-a, mãe-mãe-mãe, pai-pai-pai). Também podem ser na forma de bloqueios (quando não há produção de som e a boca fica “parada” por uns segundos) e prolongamentos de sons (eeeeeeeu, mmmmmãe).

Já a taquifemia é caracterizada por uma fala muito, muito rápida. Tão rápida que a pessoa “come” sílabas e muitas vezes a fala se rompe e se torna quase ininteligível. Na proporção, ocorre menos frequentemente que a gagueira. Mas é importante que se saiba da Taquifemia, porque muitas vezes, quando se investiga se há casos de gagueira na família, temos que saber se há casos de pessoas que falam muito rápido. E esse pode ser um fator causal, dentro da hereditariedade.

A principal linha de diferenciação entre a disfluência, a taquifemia e a gagueira é a consciência da criança. A criança não percebe quando está disfluente ou se está falando muito rápido. Mas percebe muito cedo que sua boca não funciona como sempre, que tem momentos em que não consegue dizer o que pretende. Uma criança com 24, 26 meses já se dá conta perfeitamente de que a “boca tranca”. Muitas vezes ela chora, bota a mão na boca, desiste de falar, mostra sua frustração.  E isso ocorre justamente porque não entende o que lhe acontece e as pessoas ficam mandando parar, respirar, se acalmar…

O que causa a gagueira? 

A gagueira, sendo um distúrbio complexo neurodesenvolvimental, tem causas multifatoriais. A mais predominante é a hereditariedade. Entre 70% e 80% das crianças que gaguejam tem história de gagueira ou dificuldades de linguagem e fala na família. A segunda causa mais incidente está relacionada com dificuldades perinatais (problemas que ocorrem ao redor no nascimento) como pequenas lesões, prematuridade, circular de cordão, demora em respirar, entre outras. Existem outras causas com menor incidência.

Também se sabe que a gagueira é predominante em meninos, numa proporção de 4 meninos para 1 menina, é mais frequente em gêmeos univitelinos do que em gêmeos bivitelinos, que em até 60% dos casos existem outros fatores aparentes que são relacionados com o processo de aquisição da linguagem oral. E ocorre em 1% da população mundial.

O que é considerado uma gagueira ‘normal’, ‘passageira’, sem necessidade de tratamento?

Vamos entender o seguinte: gagueira é um distúrbio. Nenhum distúrbio pode ser considerado “normal”. Distúrbio é sinônimo de problema. O que poderíamos chamar de “normal” é a disfluência, descrita acima. Se diz que a disfluência pode ser “normal” porque atinge quase 80% das crianças em processo de aquisição de linguagem. Mas NUNCA esquecer de que ela não pode durar mais que 8 semanas. A partir desse momento, deixa de ser “normal”.

Isso é MUITO importante porque o cérebro aprende por repetição. Então, quanto mais tempo uma criança ficar gaguejando, mais complexo será reverter o processo. Logo, quando alguém disser para esperar que em até dois anos vai passar, por favor não acredite. Se não passou em até 8 semanas, não é uma disfluência. E gagueira não passa sozinha. Pelo menos não sem ajuda profissional especializada.

Uma gagueira, se não tratada o mais próximo possível do momento em que aparece, tem a tendência a permanecer. Por isso, um diagnóstico diferencial é fundamental. Um tratamento fonoaudiológico realizado por profissionais especializados na área, permite de 98% a 100% de chances de a gagueira desaparecer.

Que tipo de fonoaudiólogo precisamos procurar nesses casos?

Gagueira é um distúrbio na fluência da fala, e a fluência é um dos parâmetros de uma boa linguagem. Por isso, o profissional habilitado para tratar de distúrbios de linguagem é o fonoaudiólogo especializado na área. Infelizmente, no Brasil existem poucos que se dedicam à área da fluência. Como em qualquer profissão, existe o generalista e o especialista. Para distúrbios de fluência, é necessário que o profissional tenha formação específica e conhecimentos profundos sobre estes distúrbios.

Como é o tratamento? Quanto tempo dura?

O tratamento será a consequência de uma avaliação, onde se verá as características das rupturas, seus tipos, a duração das palavras gaguejadas, a velocidade de fala, bem como os manejos que estão ocorrendo com a criança quando sua fala rompe.

O tratamento é individualizado, planejado especificamente para uma criança, já que sua gagueira não será igual a de ninguém mais. Dependendo da faixa etária, o trabalho é lúdico e estará dependente das habilidades e competências do profissional. A duração do tratamento é totalmente dependente de como se estabelecem os vínculos entre a criança, a família e o fonoaudiólogo.

Também depende da quantidade de vezes que esta criança será atendida. Como o cérebro da criança está em desenvolvimento, quanto mais vezes por semana houver atendimento, melhor. Mas, seguramente, uma vez só na semana produz muito pouco resultado. O tratamento também envolve a família, que deve ser orientada e acolhida sistematicamente.

Murilo iniciará seu tratamento em breve. Continuem acompanhando a gente! Até mais!

8 comentários

  1. Patricia Nascimento

    As vezes isso é uma fase minha irmã mais velha teve quando estava próximo dos 3 anos e depois parou, eu tive tbm mais ou menos na mesma faixa etária e logo passou, minha filha tbm a mesma coisa, mas as vezes ainda gagueja quando tenta explicar alguma arte que não tem explicação uma dica é vc pedir pra criança se acalmar e falar devagar, aqui funciona

    1. Michele Kaiser

      A gagueira não é consequência de comportamento ou nervosismo, o que acontece é que a ansiedade pode aumentar a gagueira. Iniciamos o tratamento e pode deixar que eu continuo contando por aqui! Beijos.

  2. Railde

    Esta semana fiz estágio numa turma de 3 ano do ensino fundamental e percebi que uma das crianças tem essa gagueira que trava na hora de falar. A professora me disse que é assim mesmo quando ele fica nervoso, ai eu falei para ela sobre seu texto, provavelmente ela vai falar com os pais dele sobre o assunto.

    1. Michele Kaiser

      Tomara que meu texto ajude esses pais e essa professora! É importante prestarmos atenção no período. Até 8 semanas pode ser considerado normal. Mais do que isso tem que tratar para não evoluir e ir piorando, dificultando o tratamento. Beijos!

  3. Evelyn

    Olá, como está seu filho? A gagueira passoj

    1. Michele Kaiser

      Olá. Meu filho está em tratamento. Já diminuiu, mas ele deve continuar com as sessões. Beijos.

  4. Denise

    Boa noite Michele!
    Como esta o progresso do seu filho?
    Tbm estou passando por este processo.
    Abraços
    Denise

    1. Michele Kaiser

      Está evoluindo bem na consulta. Mas assim que chega em casa ele começa a conversar com os irmãos e acaba cometendo os mesmos errinhos de fala novamente. A fono quer ver os outros na próxima consulta. Depois eu conto. Como está o progresso do seu? Um beijo!

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