Estereótipos na infância: por que criamos?

Quando finalmente engravidei pela primeira vez, depois de dois anos de tentativas, me vi esperando que fosse um menino. Descoberto o sexo do bebê, me convenci que eu não tinha razão alguma para não gostar de ter uma menina. Me obriguei a criar expectativa negativa sobre meninos. Eu estava criando estereótipos na infância.

Meninas são meigas, queridas, amigas da mãe e do pai. As roupinhas para meninas são muito mais lindas e dá para encher aqueles cabelinhos de enfeites. Geralmente começam a falar antes, interagem mais e vão melhor na escola. Quando adultas, ficam mais perto da família. Mas por que raios eu queria um menino mesmo?

Meninos são desobedientes, arteiros, sobem por tudo. Estragam os móveis, quebram os brinquedos. Enquanto as meninas falam antes e desenvolvem mais na área da fala e desenho e pintura, os meninos começam a engatinhar e caminhar antes, se destacando no lado físico. Menino tem que gostar de futebol. E não pode ter cabelo comprido! Espera aí!! Mas isso aí não são todos ridículos estereótipos???? Quem disse que as coisas são assim?

Assim como existem “brincadeiras de menino” e “brincadeiras de menina”, existem comportamentos esperados por parte dos meninos e por parte das meninas. Mas na minha opinião, embora algumas tendências se provem verdadeiras, a gente não deve deixar de oferecer brincadeiras e atividades por causa do sexo (gênero) da criança. Todas as pessoas são diferentes umas das outras e, sendo ou não do mesmo sexo, pessoas são diferentes. Por isso acho que não devemos incentivar os estereótipos na infância.

Estereótipos na infância

Tive quatro filhos e não podem existir crianças mais diferentes umas das outras no mundo! Se eu fosse basear minha opinião sobre como são as meninas simplesmente na Mônica, ia dizer que são meigas, vaidosas e inteligentes. Se fosse basear minha opinião de como são os meninos somente no Marcelo, ia dizer que são distraídos, bagunceiros mas muito tímidos. Se fosse basear no Murilo, ia dizer que são brincalhões, simpáticos mas muito sentimentais. Gostam de ser independentes e querem fazer tudo sozinhos, desde vestir-se até abrir embalagens. Se fosse basear no Matheus, ia dizer que são queridos, próximos à família, muito concentrados mas também bastante manhosos.

Minha Mônica nasceu meiguinha. Sempre prestou muita atenção e todas as coisas que a gente ensina ela recebe com curiosidade e interesse. Fico muito feliz em perceber o quanto ela é inteligente e esperta e o quanto ela se importa com os sentimentos das pessoas. Ela tem o estereótipo da menina perfeita: meiga, carinhosa e esperta. “As meninas são assim”.

Desde que seus irmãos nasceram, Mônica cuida e ajuda com eles. Nunca demonstrou ciúmes. Na verdade, a gente divide mentalmente a família em dois grupos: os pais (Maurício, Michele e Mônica) e os filhos (Matheus, Murilo e Marcelo). Mas com algumas ressalvas, nossos meninos nunca foram muito bagunceiros. São crianças e crianças fazem bagunça. Mas tirando o fato de Marcelo ter quebrado duas televisões em uma fasezinha difícil que tiveram aos dois anos, não podemos dizer que nossos filhos são desobedientes, arteiros ou “impossíveis”, como dizem ser o estereótipo geral dos meninos.

Menina não faz bagunça?

Enquanto as meninas são consideradas calmas e organizadas, os meninos são ditos bagunceiros e desobedientes. Mas como a gente não curte estereótipos, vou ilustrar com a história da Julia Daoud que, assim como eu, tem quatro filhos. O Vitor, de 5 anos, e as trigêmeas Liz, Clara e Maria, que recentemente completaram 3 anos.

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Segundo a mamãe Júlia, o Vitor sempre foi muito obediente, seguidor de rotina, um menino metódico. “Ele é um anjo e a Liz é muito pimentinha. Ela enfia o dedo na tomada de propósito, ela sobe em tudo, ela escala minha casa inteira. Eu tinha muito medo que meus trigêmeos fossem três meninos”, confessa. “Quando estava grávida, pensava: ‘nossa, vou ficar com quatro meninos dentro de casa, essa casa vai virar um campo de batalha’. Mas o Vitor era muito bonzinho comparado a elas. Para o Vitor, eu falava uma vez: ‘Não mexe aí!’ e ele nunca mais mexia. Minhas trigêmeas já têm três anos e minha casa não tem um enfeite”.

estereótipos na infância

Liz, Clara, Vitor e Maria usando rosa.

Devido ao estereótipo criado sobre meninas, Julia achava que “tiraria de letra” as três meninas. Mas descobriu em sua experiência que os filhos são diferentes e se surpreendeu em ter um menino comportadinho e três meninas “pimentinhas”, como ela as descreve. Lembro de uma amiguinha da Mônica, aos 4 anos, rindo de um menino que tinha ido à uma festa de aniversário com uma camiseta rosa (salmão, na verdade). Não é este tipo de comportamento que espero dos meus filhos. Eu acho que, mais importante do que tudo isso, é criar nossos filhos sem preconceitos, independentemente de gênero e sexo. Até mais!

 

4 comentários

  1. Nathália

    Você é incrível!! Se todas as pessoas pensassem e criassem os filhos que nem você, nosso país seria outro.

    1. Michele Kaiser

      Obrigada pelo carinho! Bjs

  2. Lauren

    Oi Michele! Acho muito válido tudo que você fala sobre gênero e estereótipos atrelados a ele. Vivo em uma batalha diária com minha irmã de 5 anos (que como a Mônica é uma “menina perfeita”), pra que ela não reproduza comportamentos preconceituosos sobre cores ou brinquedos. Mas na festa dela de 5 anos da Princesa Sofia, tudo lilás e branco, uma das lembrancinhas foi copo, e minha mãe fez questão de separar o copo roxo para as meninas e comprar azul exclusivamente pros meninos. Uma besteira, na minha opinião! Bjs

    1. Michele Kaiser

      Algumas coisas são desnecessárias, não é? Meus filhos têm uma cor que os representa na escola (porque ainda não sabem ler e precisam identificar seus materiais de alguma forma). A cor do Murilo é roxo. Qual é o problema? Beijos.

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