Vacinas: perigos da não imunização

Para muitas pessoas, vacinar ou não vacinar um filho é uma decisão individual. Mas se muita gente deixar de vacinar seus filhos, isto passa a ser um caso de saúde pública. Intrigada com o assunto, convidei a pesquisadora Rossana Soletti, autora do site Maternidade com Ciência para esclarecer o fato das vacinas: perigos da não imunização.

Por Rossana Soletti

vacinas: perigos da não imunizaçãoUm assunto que tem sido muito comentado no mundo é o ressurgimento de várias doenças antes consideradas erradicadas. Mas por que isso tem acontecido? A causa é o movimento anti-vacinação, que vem ganhando força em alguns países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a eliminação do sarampo tinha sido documentada em 2000, mas desde 2014 vários surtos aparecem em diferentes estados! O mesmo acontece no Canadá e em alguns países da Europa, e a preocupação é que o movimento está chegando também a países em desenvolvimento, como o Brasil.

Vacinar ou não um filho é uma decisão individual e por isso existem argumentos de que não devemos nos preocupar com a decisão dos outros. O que ocorre é que se muita gente deixar de vacinar seus filhos, isso passará a ser um problema de saúde pública. Por exemplo, se uma criança não vacinada tiver sarampo, ela poderá passar adiante a doença para uma criança que ainda não atingiu a idade da vacinação.

E por que alguns pais optam por não vacinar seus filhos? Muitos têm medo das possíveis reações das vacinas. E um dos motivos é a crescente onda de “naturalização” do estilo de vida. Eu acredito que ter uma vida mais natural é excelente quando a proposta é melhorar a alimentação e praticar o consumo consciente. Mas não é por causa disso que vamos abdicar de todo o desenvolvimento que a ciência e a medicina tiveram nos últimos anos! Outro motivo é a veiculação de textos informando que vacinas estariam ligadas ao desenvolvimento de autismo. Porém isso é um grande mito!

O mito vacina = autismo

Um ótimo artigo publicado há poucos meses na revista Science (uma das revistas científicas de maior excelência no mundo) mostra um histórico de como esse mito foi se perpetuando. Ocorre que lá em 1998 um médico cientista chamado Andrew Wakefield publicou um trabalho na revista The Lancet sugerindo que a vacina contra caxumba, rubéola e sarampo poderia causar autismo. Com isso, as taxas de vacinação na Inglaterra caíram drasticamente nos anos seguintes. Já nos anos 2000, Wakefield passou a ser investigado e descobriram que ele tinha depositado uma patente para uma nova vacina e estava envolvido em um esquema financeiro que tentava processar as empresas de vacina. Isso caracteriza o que chamamos na ciência de CONFLITO DE INTERESSES não revelado. Com isso, o The Lancet retratou o artigo de Wakefield em 2010 e logo depois o médico teve sua licença cassada.

Outras confusões também ajudaram a perpetuar esse mito, como a do médico americano Mark Geier, sugerindo haver uma interação entre mercúrio presente nas vacinas e a testosterona circulante nos meninos, que explicaria os sintomas de autismo. Os estudos publicados por ele foram severamente criticados pelos erros metodológicos, mas o grande problema é que Geier passou a vender tratamentos baseados nessa teoria, todos não comprovados e que ainda ofereciam sérios riscos às crianças. Após uma investigação, o Comitê Médico do estado americano de Maryland cassou a licença de Geier.

Quanto ao uso de mercúrio e outros metais nas vacinas, eles realmente são usados como conservantes, porém em quantidades extremamente pequenas. A grande massa de trabalhos científicos mostra que não há riscos para quem é vacinado. O mercúrio das vacinas, por exemplo, está em uma forma não absorvida pelo organismo, ao contrário do metil-mercúrio que contamina nossas águas e que se acumula ao longo da cadeia alimentar.

Outras publicações científicas sérias que envolveram milhares ou milhões de crianças já relataram não haver diferença nos índices de diagnóstico de autismo entre crianças vacinadas e não vacinadas. Infelizmente já ouvi muitas pessoas acreditando nesse mito, inclusive profissionais de saúde, e por isso acho tão importante repassarmos os contra-argumentos.

Doenças perigosas x ideologias

Algumas pessoas no Brasil dizem não seguir o calendário de vacinação brasileiro porque não haveria necessidade de tantas vacinas no primeiro ano do bebê. Eu, sinceramente, não consigo entender qual seria a vantagem em não vacinar o bebê no primeiro ano e deixá-lo suscetível a várias doenças que podem matar! Outra coisa que me deixa intrigada é usar como ideologia justamente essa falsa associação de que vacinas poderiam aumentar o risco para o desenvolvimento de transtornos de comportamento – então quem acredita nessa falsa associação prefere que o filho corra o risco de ter uma doença fatal do que o risco dele ter hiperatividade, por exemplo?

Outro ponto importante nessa questão é analisar as fontes de informação que nós consumimos. Já vi pais do movimento anti-vacina indicando livros e documentários como referência para suas alegações. O perigo é que qualquer pessoa que quiser publica um livro ou filme com as suas ideias. Para analisar dados e fatos sobre vacinação é preciso recorrer a estudos conduzidos por epidemiologistas sérios e sem conflitos de interesse – estudos que foram validados, revisados por outros estudiosos da área e publicados em revistas de alto impacto científico.

Isso quer dizer que todas as vacinas são 100% seguras para todas as crianças? Não, existem raros casos específicos em que pode haver contraindicações, e por isso é extremamente necessário que cada criança seja acompanhada por um pediatra e analisada individualmente. Porém, a maioria das crianças se beneficia dos programas de vacinação em massa. Eu acredito que vacinar uma criança é um ato de proteção não somente à ela, mas também às outras crianças que com ela convivem!

Saiba mais informações no site do governo federal.

Fontes de informação científica e epidemiológica para saber mais sobre o assunto:
Wessel L, Four vaccine myths and where they came from. Science, abril de 2017.
https://www.cdc.gov/measles/cases-outbreaks.html

vacinas: perigos da não imunizaçãoA Professora Universitária e Pesquisadora Rossana Soletti é Mestre em Neurociências e Doutora em Ciências Morfológicas. Mãe da Marina e da Lara, criou o blog Maternidade com Ciência para escrever sobre o que a ciência têm descoberto a respeito de temas importantes relacionados com gestação, maternidade, saúde e bem-estar das crianças. Acredita que compartilhar conhecimento ajuda a encarar o desafio de criar seres humanos num mundo em constante transformação.

3 comentários

  1. Aqui onde eu moro, na Austrália, virou moda não vacinar. Com isso estão explodindo surtos de doenças que já deviam ter sido controladas. Essas últimas semanas mesmo está um surto de sarampo seríssimo. A coisa ficou tão preocupante que o governo lançou uma nova lei que determina que creches e escolas exijam o certificado de vacinação das crianças para que elas possam ser matriculadas, além dos benefícios financeiros concedidos pelo governo serem vinculados também ao certificado de vacinação. Já é um avanço, mas eu ainda acho temerária essa onda anti-vacinação porque as crianças não vacinadas ainda circulam em locais públicos.

  2. Gisele

    Excelente. Vacinar é amar. Não consigo entender quem não quer vacinar seus filhos. As pessoas acreditam em qualquer um, menos nas pessoas que estudaram/estudam para o bem da saúde da população. O mundo tá de cabeça pra baixo mesmo. Parabéns pelo belo trabalho.

    1. Michele Kaiser

      Obrigada por dar importância a um assunto que merece esta relevância. Um beijo!

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