O dia em que pensei que íamos morrer

Era sábado, 13 de abril de 2019, um dia que vinha sendo esperado pelas crianças há um certo tempo. Eles haviam sido convidados para dois aniversários e estavam super felizes com isto. Eles estudam em turmas diferentes na escola, então Matheus tinha o aniversário surpresa de um coleguinha e o Marcelo tinha a festinha de outro. Para minha sorte, a mãe do coleguinha do Marcelo tinha me dito para levar todos os irmãos, se o Marcelo quisesse.

Na idade que eles estão (5 para 6 anos), um adulto acompanhante ainda é convidado para as festinhas. Acho isso muito bom porque ainda não me sinto muito segura em deixá-los sozinhos nos aniversários. Sei lá, acho que – diferente da escola – eles não vão ter alguém para limpá-los se precisarem fazer número dois no banheiro. Ou se se machucarem em algum brinquedo, temo não estar lá. Enfim, ainda gosto de acompanhá-los.

Como meu marido tinha dois compromissos diferentes naquela tarde, eu havia esquematizado tudo para poder levar cada um na sua festinha, que eram em horários diferentes mas em locais próximos. Mônica tinha sido convidada para passar a tarde na casa de uma amiguinha, então eu tinha uma maratona pela frente, levando quatro crianças em três lugares diferentes. E como achei que seria interessante mostrar uma rotina bem maluca de mãe de quatro filhos, resolvi filmar tudo para nosso canal no YouTube.

O início da maratona

Saí de casa às 14h com Matheus e Mônica, enquanto uma tia do meu marido ficou com Marcelo e Murilo aqui em casa, esperando eu voltar. Levei Mônica na casa da amiga, demos tchau, beijo e bênção. Saí de lá rumo à festa do colega do Matheus. Chegamos às 14h15, cumprimentamos os pais e coleguinhas e, em torno de 14h30, o aniversariante chegou. Tudo certo! Fiquei na festa conversando com as mães e monitorando Matheus até por volta de 15h. Deixei a mãe de um coleguinha dele avisada de que eu estaria em outra festa a seis quadras dali com os outros dois e, quando a festa acabasse, pedi que ela me ligasse para que eu fosse buscar. A outra festa estava marcada para às 16h.

Fui até em casa, liberei a tia, arrumei Marcelo e Murilo e fomos à festa do colega do Marcelo. Fomos uns dos primeiros a chegar, às 16h15. Eles brincaram, se enturmaram, e eu fiquei conversando com as mães. Trocamos experiências, falamos sobre a escola, cantamos o parabéns e, em torno das 18h, a mãe do amigo do Matheus me mandou mensagem dizendo que estava indo embora da outra festa porque estava acabando. Ela se ofereceu para levar o Matheus para a casa dela para que eu buscasse ele lá mais tarde, quando esta festa que eu estava acabasse. Mas, como a casa dela é mais longe e eu estava a apenas seis quadras da outra festa, resolvi avisar a mãe do aniversariante e as monitoras de que eu iria deixar Marcelo e Murilo uns 15 minutinhos ali, enquanto buscava o outro.

Ao sair do local da festa, percebi que estava começando a chover. Os pingos eram grossos, pensei que deveria me apressar para pegar ele logo. Fui dirigindo até lá e a chuva rapidamente engrossou. Cheguei em frente ao prédio e Matheus já estava dentro do carro dela, me esperando. Nos molhamos muito ao trocar de carro, mas Matheus entrou no nosso e cada uma seguiu seu rumo com seu filho. Mal sabíamos o que passaríamos…

O início do horror

A chuva desabou sobre nossas cabeças! Eu dirigi até a esquina e percebi que não haveria condições de chegar ao local da outra festa. Resolvi parar o carro próximo à esquina. A rua é muito arborizada e começaram a cair muitos galhos em cima do carro. Começaram a cair pedras de gelo. Eu ainda estava com o carro ligado, o limpador de para-brisas estava no máximo e não estava dando conta de limpar minha visão. O medo de ficar ali parada e ser levada pela água me fez tentar sair daquela rua, que era um ligeiro morro. Tentei pegar a rua principal do bairro para, ao menos, sair de debaixo das árvores.

Mas neste momento chovia torrencialmente, com pedras de gelo e vento em rodopio, como se estivéssemos no olho de um furacão. Já na rua principal do bairro, tentei parar novamente, mas não conseguia diferenciar a rua da calçada, da esquina. Tudo o que eu via era um rio à minha frente e pedras de gelo tiroteando o carro. Abri o vidro da minha janela para conseguir enxergar. Tentei seguir à frente, com o carro aquaplanando, torcendo para que não aparecesse outro veículo para colidir conosco. O momento era de puro pavor.

Resolvi parar o carro novamente. Olhei para meu celular e pensei para quem eu pediria ajuda! Meu marido estava longe dali e, mesmo que perto estivesse, o que poderia fazer? Pensei em ligar 190, mas como iriam me socorrer? Socorro! Essa chuva TEM que parar. Matheus estava quietinho no carro, no banco de trás, sem entender o que estava acontecendo. Eu só dizia para ele: “filho, tá chovendo mas já vai passar. A gente já vai sair daqui”. Ele só respondeu: “tá bom”.

Nesta hora eu entrei num desespero interno, tentando passar calma ao meu filho. O que eu faço agora? Fico aqui? Se ficar, seremos levados pela água! Continuo? Meu Deus, mas não enxergo para onde ir! Como continuar? Olhei para os lados e pensei: “Não acredito que vamos morrer aqui, agora. Numa circunstância tão besta”. Por que não fiquei na festa? Por que Matheus não estava conosco na outra festa? Como faço para proteger esta criança?

Então olhei de novo para meu celular e abri o Google Maps. Coloquei o endereço da casa de festas em que estávamos para ver se o Google me dizia se eu estava próximo. Eu não reconhecia as ruas! Então vi que estava a apenas uma quadra do local. Cogitei descer do carro e irmos a pé. Se podíamos ser levados pela água com o carro, imagina sem! Resolvi tentar continuar. Com a janela aberta e o gelo entrando, segui pela rua.

Reconheci o prédio alto da esquina da rua do local da festa e me aventurei a dobrar a esquina, sem enxergar nada! Vi que estava na rua certa com a ajuda do Google. Enquanto dirigia nesta rua, que só tem uma quadra, a chuva foi diminuindo. As pedras pararam de cair e o terror passou. Consegui “estacionar” próximo do local. Neste momento, “apenas” chovia forte. Sem pedras e sem vento. Era uma chuva bastante forte, mas nada perto do que tínhamos acabado de vivenciar.

O alívio por tudo ter terminado bem

Quando desliguei o carro, desabei em prantos. Chorei demais! Chorei de susto, de medo, de raiva, mas principalmente de alívio. Alívio por termos sobrevivido àquela loucura. Descemos do carro e fomos encontrar os outros manos. Ao sair do carro, vimos gelo alto no chão. Vimos carros com gelo por cima dos limpadores de para-brisa. Diversos deles com o alarme tocando. Vimos a placa de um restaurante no chão. Vimos a placa do nome da rua também no chão. Vimos galhos enormes (quase árvores inteiras) caídas.

Ao entrar no local da festa, todos os convidados estavam em um canto pois o local havia alagado! Com a forte chuva, entrou água pelo teto e as paredes estavam escorrendo. O chão estava todo molhado. Marcelo e Murilo estavam junto com os demais, acolhidos pelos adultos. Cheguei tremendo e toda molhada (havia dirigido com a janela aberta). Aconselhei as pessoas que esperassem a chuva parar pois a cidade deveria estar um caos.

Esperamos mais uns 20 minutos e a chuva cessou totalmente. Peguei os meninos e voltamos ao carro. Na rua, o gelo tinha quase derretido por completo e os moradores do bairro estavam fazendo os cálculos dos danos. Um vizinho entregou ao outro a tampa da caixa d’água dele, que tinha ido parar no terreno do primeiro. Recolheram as placas das ruas, começaram a tirar os galhos maiores. Não tinha eletricidade. Em minutos o céu começou a limpar tão rapidamente que considerei uma afronta à minha saúde psicológica.

Conforme fomos indo para casa, foi escurescendo. Passamos por quatro bairros até buscar a Mônica e o centro da cidade estava sem luz. Quando chegamos, ela e a amiga contaram o medo que tiveram das janelas quebrarem, de tanto vento e pedras de gelo. Todas as pessoas com quem falei disseram que nunca tinham visto um fenômeno como aquele. A única coisa que consigo pensar é: “imagina de dentro de um carro”.

Meu marido estava em um bairro mais afastado e lá não choveu. Só ficou sabendo que choveu porque viu nas notícias. Quando cheguei em casa com os quatro, tomamos banho, nos aquecemos, dei comida a eles. Quando meu marido chegou, desabei. Contei a história, chorei, nem acreditava que depois de tudo o que passamos nós estávamos ali, todos sãos e salvos.

Às vezes a gente precisa de acontecimentos como este para perceber que somos muitos vulneráveis, que uma tragédia pode acontecer num piscar de olhos. Na hora do meu desespero, quando eu não sabia o que fazer para me salvar e salvar o Matheus, só pensava no quanto eu queria estar segura, com todos os meus filhos debaixo das cobertas em casa, no aconchego do nosso lar. Talvez isso tudo seja um sinal de que a gente tenha que fazer isso mais vezes. Até mais.

Galeria com imagens que recebi de conhecidos via whatsapp. Autor desconhecido.

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