Filho idealizado x Filho real

Filho idealizado x filho real. Antes de vir ao mundo, o filho nasce na imaginação da gente, não é mesmo? A expectativa dos pais faz parte e é saudável, mas precisamos abdicar do filho que idealizamos em nossa cabeça para sermos pais verdadeiros do filho que nasceu de verdade.

Filho idealizado x filho real

Foto de Thamy Giordana

Quando finalmente engravidei pela primeira vez, depois de quase dois anos de tentativas, me vi idioticamente torcendo e esperando que fosse um menino. Não sei muito bem o porquê. Talvez porque meus pais tenham tido três meninas. Ou porque meus avós maternos tenham tido cinco filhas mulheres e sempre pensei que meu avô sonhava com o menino a cada gravidez de minha avó. Talvez, ainda, porque meu sogro já tivesse duas netas e sempre falava no menininho. Quanta bobagem, não é mesmo?

Mas com 16 semanas de gestação foi confirmado – na ultrassonografia – que eu esperava uma menina. A princípio, a notícia me deixou com sentimentos mistos. Eu estava feliz da vida pela gravidez, mas já tinha até nome se fosse menino: Marcelo. Não tinha nome se fosse menina. A verdade é que, sempre que idealizava meu filho na minha cabeça, era um menino. Eu queria ter dois filhos. Mas o primeiro ia ser um menino.

Estereótipos na infância: Por que criamos?

Passado este momento besta de idealização do sexo do bebê, comecei a criar uma expectativa enorme com relação à cor do cabelo e à cor dos olhos da minha menininha. Lembro de uma vez estar em uma loja de artigos infantis, completando o enxoval, e a vendedora me dizer: “imagina que linda será se sua menina tiver o seu cabelo (ruivo) e os olhos do seu marido (verdes)”. Lembro de ter sorrido e pensado: “pior se ela tiver os meus olhos (castanho escuros) e os cabelos do meu marido (castanho escuros)”.

Filho idealizado x filho real

Acontece que a Mônica nasceu morena de olhos escuros e, em um primeiro momento, fiquei um pouco frustrada de ela não ser ruiva. Me vi esperando que seus olhos clareassem nos primeiros meses de sua vida. Como toda a mãe, eu estava muito feliz por ela ter nascido com muita saúde, apesar do baixo peso. Ela nasceu às 19h57 e passou a primeira noite no hospital dormindo quase que o tempo todo e eu não tirei os olhos dela. Não dormi um minuto sequer. Mas olhava para aquele pacotinho lindo e tinha um sentimento esquisito. Eu tinha esperado tanto pela minha filha – quase dois anos tentando engravidar e mais as 38 semanas da gestação. Mas eu não conseguia relacionar aquele bebê no bercinho ao lado da minha cama no hospital com o bebê que estava na minha barriga. Parece que a ficha não caía.

Passei por um baby blues meio pesado. Chorei muito nestes primeiros 20 ou 30 dias. Meu marido perguntava porque eu estava chorando e eu mesma não sabia dizer o porquê. É aquela coisa normal do puerpério, de o organismo precisar se reajustar de novo e a gente se acostumar a ter um bebê para cuidar. Mas eu continuava achando muito estranha a realidade, quando a expectativa tinha sido tão diferente.

Não que a expectativa tenha sido tão diferente assim, não. Mas é que eu não era mãe. Conhecia a maternidade somente na teoria. Quando me tornei mãe, a prática era diferente. As coisas eram reais. As dificuldades eram reais. Aquela solidão materna na madrugada amamentando. Aquela canseira que a gente só entende quando vive. Aquela dureza de vida que a gente reclama, mas não consegue viver sem. Cada sorrisinho do bebê alivia todos os outros males. E isto a gente só entende depois que eles nascem.

Lembro de ter comentado com a terapeuta que fui durante a gestação sobre aquele episódio com a vendedora da loja e ela ter falado sobre o filho idealizado x filho real. O filho nasce antes na imaginação da gente. Mesmo antes da minha gravidez, nós dois pensávamos em como seria o bebê, parecido com quem. Vai ser parecido com a mãe e vai ter a personalidade do pai, por exemplo. Vai ser médico, cientista, muito inteligente. Ah, e muito bonito também, claro. Tudo isso faz parte da idealização do casal e esta expectativa é saudável, desde que não se torne uma exigência mais tarde na vida dos filhos.

Uma filharada

Quando engravidei dos trigêmeos e descobrimos que seriam três meninos, brincamos que era minha culpa porque eu queria tanto ter filhos – e menino – que me mandaram três! Fui surpreendida nas minhas duas gestações. Na primeira, criei tanta expectativa em todos os sentidos que, ao engravidar novamente, resolvi não esperar nada. Apenas torcia por ter um bebê saudável. Mas aí descobrimos que eu esperava trigêmeos! Eu queria tanto dar um(a) irmão(ã) para Mônica que vieram três! Realidade totalmente diferente da expectativa, mais uma vez!

O fato é que a realidade é muito melhor do que a minha expectativa. Nunca pensei que minha menina ia ser tão maravilhosa! Sou suspeita para falar, mas ela é meiga, carinhosa, se importa com os sentimentos dos outros. É esperta, inteligente e nunca vi menina mais linda na face da Terra.

E meus meninos são fofos, queridos, coisas mais lindas da mamãe. Fazem baderna em casa e às vezes me deixam louca! Nosso dia a dia têm momentos cansativos mas a maioria deles são dias agradáveis. Nada aqui em casa foi conforme o “planejado” mas a gente tem que parar de procurar defeito na vida da gente e focar em dar o melhor de nós a eles. Também fomos frutos da expectativa de nossos pais e também não somos perfeitos. Até mais!

Deixe seu comentário