Precisamos ter vida fora da bolha da maternidade

Eram 23 horas quando uma mãe, cansada da rotina e dos afazeres do dia, sentou-se no sofá para descansar e se organizar mentalmente para o dia seguinte. As crianças dormiam, sossegadas, e ela parou para pensar na vida. Havia parado de trabalhar e estava, deu-se conta, há 7 anos sem exercer sua carreira. Tudo bem, pensou, mas já estava cansada de enganar a si mesma dizendo que não sentia falta de seu emprego, que era uma coisa que gostava muito.

Começou a pensar, pensar, e sentiu-se triste. Os sentimentos de exaustão e infelicidade tomaram conta, encobrindo aquela alegria que sentia em estar sempre próxima aos filhos. Todos os dias o marido chegava em casa do trabalho cheio de novidades, experiências, vivências. Ela começou a se sentir inferior. Já não crescia mais profissionalmente, e dependia do marido e da internet para trazer informações da vida fora da bolha da maternidade.

O amor que sente pelos filhos fez com ela sentisse culpa por estar com todos esses sentimentos retraídos. Tomada por tantos pensamentos negativos, começou a sentir-se mal. Ficou ofegante, com uma dor forte no peito, e pensou estar tendo um infarto. Pediu socorro a uma vizinha, que ficou com seus filhos adormecidos, e foi para o hospital. Depois de diversos exames, da pressão arterial alterada, constataram se tratar “apenas” de uma crise de ansiedade.

A gente precisa de ajuda

Ser mãe é uma tarefa difícil, ainda mais quando a gente faz tudo sem ajuda. Escrevi aqui no blog, certa vez, que me senti melhor amparada quando os meninos nasceram do que quando tive minha primeira filha. Isso aconteceu por dois motivos. O primeiro é porque eu já não era uma mãe inexperiente, já havia tido a Mônica. O segundo é que, devido a grande necessidade, me obriguei a pedir ajuda!

Ainda durante a gestação, meus pais se mudaram para a minha cidade (e para o mesmo condomínio onde moro) para me ajudar. Eu estava muito grande e com os movimentos bastante limitados, por isso precisava de ajuda para cuidar da filha mais velha que recém havia completado dois anos e ainda usava fraldas. Tive, assim, a ajuda dos meus pais e da nossa funcionária, que já era babá da Mônica na época porque eu trabalhava fora em um horário um pouco ruim para poder botá-la em escolinha.

Depois que os trigêmeos nasceram, minha mãe e meu pai me ajudavam a cuidar deles durante o dia, enquanto meu marido trabalhava. Minha mãe ajudava com a casa, meu pai fazia supermercado e outros tipos de compras. Meu marido ajudava quando estava em casa e nas madrugadas a nossa funcionária (que ainda é a mesma) dormia aqui. Passava o dia na casa dela e trabalhava com a gente durante a noite (horário que estava familiarizada porque havia trabalhado muitos anos no turno da noite em hospital).

Hoje, depois de alguns anos (os meninos completarão 4 anos em outubro), ainda tenho essa mesma funcionária durante as manhãs e, à tarde, as crianças vão para a escola. Meus pais se mudaram de volta para a cidade deles quando os trigêmeos tinham 1 ano e 3 meses. A gente foi se acostumando com a rotina doida e corrida, mas tudo foi dando certo porque tínhamos ajuda de uma porção de gente.

A vida fora da bolha da maternidade

Fiquei um pouco impressionada nesta última semana quando fiquei sabendo deste caso que descrevi acima. Uma crise de ansiedade, confundida com um infarto, vinda de uma mãe que todos conhecem como uma pessoa alegre e feliz com sua escolha. Ter ajuda é essencial para manter o corpo e a mente sãs. Na minha opinião, faz muito bem trabalhar ou ter alguma outra atividade extra quando as crianças estão na escola para sairmos da bolha da maternidade. É importante termos a chance de ter vida fora da bolha.

Recentemente a atriz Taís Araújo esteve em destaque na mídia por dizer que ela era muito mais do que mãe. “Maternidade não me completa. Sou bem mais que isso”, disse. O discurso trouxe certa polêmica, vários apoiaram, diversos foram contra. Mas o fato é que é possível ser mãe e ser mais do que mãe. No meu caso, a maternidade completou o meu coração. Mas sinto muita alegria (e necessidade real) de ter outras atividades e interesses.

Minha mãe, quando morou comigo, me incentivou a continuar trabalhando depois do nascimento dos meninos. Teríamos dado um jeito financeiramente se eu tivesse parado de trabalhar, mas na opinião de minha mãe, era muito importante voltar não só pela necessidade de contribuir em casa. Eu sempre tive muitas atividades e ela achava que, assim como fez bem para ela, voltar a trabalhar seria muito importante para mim emocionalmente.

Ela tinha toda a razão e, hoje, consigo balancear o trabalho e a maternidade muito bem, porque tenho ajuda de uma funcionária maravilhosa, que cuida das crianças de manhã, da comida e da roupa. Espero que a mãe da história que contei consiga restruturar a vida para se encontrar como pessoa, como mulher, novamente. Todas nós precisamos de ajuda de vez em quando. E, tenho certeza, ter vida fora da bolha da maternidade nos ajuda a sermos mães melhores. Até mais!

fora da bolha da maternidade

Foto: Diogo Sallaberry.

1 comentário

  1. Grazi Motta

    Lendo o post sobre essa mãe foi a mesma coisa q ler minha história…13 anos q parei n tempo…minha vida social é digital isso depois q consigo por os 3 na cama ou dou uns gritos…esse negócio n peito ta m assustando to cm medo de infartar…

Deixe seu comentário